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Um escritor pretensioso
Descobri que não posso julgar o leitor/internauta, ou o internauta/leitor. E mais: a ordem que essas palavras aparecem no contexto cá proposto é totalmente irrelevante. Em suma, tanto faz. É conseqüência um do outro e vice-versa. Mesmo sendo blogueiro e colunista deste portal, muitas vezes, não sei qual desses papéis estou interpretando quando navego na grande rede. Ora pois: se esqueço de visitar meu próprio reduto na internet, como é que posso esperar visitas e comentários para o que estou produzindo? Estranho não.
Um jornalista gaúcho me ensinou algo interessante, enquanto lia um de seus livros: “um escritor para não ser considerado pretensioso, deve concordar apenas com seus críticos, jamais com seus admiradores”. Pasmei. Em algum lugar de 2007, lembro de ter sido totalmente evasivo ao receber uma crítica. Era como se aquela pessoa não tivesse cacife para tal. Como fui tolo. Criei um casulo de admiradores e só a eles dava ouvidos. Mesmo quando percebi que deveria ser criticado não encontrei quem o fizesse. Nem o Chico, colega e crítico nato, não conseguiu faze-lo. Entrei em crise.
Passei alguns meses sem escrever e como conseqüência, deixei de atualizar o blog. O jornal pelo qual escrevia padeceu sem “amigos” que o mantivessem de pé. Pobre coitado. Não sei quem culpar por isso, mas sinto um pingo de remorso ao lembrar dos tempos que ele era lido. Sim, houve um tempo – remoto é bem verdade – que o referido jornal era lido e bastante, diga-se. Não sobreviveu, que descanse em paz. Os outros que continuam respirando são tão ruins que não merecem citação. Fujam se os virem.
É por essas e outras que não sei o que será do jornalismo daqui uns anos. Bem que tentaram me avisar: o futuro é incerto. E como é, devo acrescentar. Em dezembro último, conversava com a editora de um jornal novato nas bandas da capital gaúcha. Jornalista formada, não demorou em questionar: não se arrependeu por ter escolhido jornalismo ainda. Confesso, que de imediato estranhei a pergunta. Mas dois meses depois, acho que compreendo o que ela tentava dizer. Parafraseando o velho ditado e tentando soar otimista: já que estou na chuva que fique encharcado.
Aqueles que acompanham meus escritos talvez me critiquem desta feita. Tava na hora também. Mas o farão pela redundância, uma vez que já abordei esse assunto em outros textos. Não repetirei os mesmos erros do passado. Não. O melhor é erguer a cabeça e tentar deixar de lado, talvez aqui esteja o último desses flagelos auto críticos. Sei que preciso absorver os ensinamentos do mestre César, quando ele fala que minha narrativa lembra uma conversa de botequim, ou então, tentar não soar tanto como o Coimbra, só porque virei fã de sua maneira de escrever. É possível que seja hora de me preocupar menos com o texto e mais com o conteúdo desse texto.
Não sei fazer o que o Zé, ou o Caco sabem. Acho que vocês também não. O que sei, entretanto, é que os casulos que criamos, podem até nos proteger em alguns momentos periclitantes da vida, mas um dia eles hão de ceder. Nesse dia ficaremos expostos e muito mais próximos do definido para um “escritor pretensioso”. Não é o que quero, e acredito, não é o que você quer também. E também não quero mais encher um texto com tanto dois pontos. Basta esse. Basta.
PS: Portal que sou colunista: www.oestebahia.com.br
O jornalista (e doutor em sociologia) gaúcho citado no 2º parágrafo: Juremar Machado da Silva, o livro: A miséria do jornalismo brasileiro
Escrito por Anton Roos às 23h38
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Poste
Com tempo livre e disposição para uma boa faxina, debrucei-me sobre quinquilharias guardadas há tempos. Vinte minutos foram suficientes para empilhar alguns quilos de papel velho. De tudo quanto é tipo. Nessa empreitada, encontrei um texto deveras interessante. Nunca fora aproveitado e fora escrito cera de dois anos antes. Parei meu trabalho de classificação: isso é lixo, isso não é, e comecei a ler aquela velha produção.
Era sobre um poste. Não especificamente sobre um poste, ou qualquer poste, ou o da esquina, ou aquele que fora agredido por um motorista em alta velocidade. Na verdade, aquele escrito nasceu de um desafio. Um poste pode ser notícia? Lembro que fiquei intrigado com aquela indagação. Será que é? Precisava concentrar minhas energias em discutir o assunto. Assim fiz. Quase três laudas. Nada mal para um poste, imóvel e que quase não recebe atenção.
Depois de reler o texto, comecei a fazer conexões entre seu conteúdo e as especificidades encontradas em suas entrelinhas. Sempre fazendo analogia com o que é produzido jornalisticamente em solo brasileiro. Cá entre nós, tive pena do poste. E mais ainda do receptor da informação no país. Como são parecidos meu Deus.
Um poste é testemunha de tudo que acontece a sua volta, só não se expressa, não interage e, logo, não se comunica. O receptor sentado diante de um jornal, revista ou na frente da televisão, também é poste. Ora bolas, mesmo que absorva um cargueiro de informações, na maioria das vezes se torna produto daquilo que consome. E assim a roda continua a girar. O pobre coitado ainda acredita piamente que participa do engodo das transformações sociais ocasionadas pela "propagação" dos fatos (Leia-se como propagação, aquilo que é divulgado massiçamente quando "se resolve" divulgar).
Teoricamente, o malfadado poste não será notícia e muito menos citado em mais de duas linhas. Continuará lá, no seu lugar, quieto e estático. Ninguém ousara olhar pela janela a fim de dar atenção a ele. Existem coisas mais importantes para se fazer dentro das redações. Ora, vejamos, as agências de notícias estão aí, a imediaticidade de uma informação é muito mais importante que a qualidade como essa informação é/será divulgada.
Talvez, quando o poste cair, cansado, desolado, ele receba alguns segundos de atenção. Quem sabe. Poste por poste, somos todos iguais.
Escrito por Anton Roos às 12h56
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