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Gerúndio: procurando emprego
Faz quatro meses que o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM) demitiu o Gerúndio do serviço público daquelas paragens. Sem dó, nem piedade. Baixou decreto informando o fato e só. Curto e grosso. Sem chances de argumentação por parte do pobre coitado. Causou enorme rebuliço tão logo mandou as favas o tal Gerúndio. Prós e contras falaram, continuaram a falar e "vão estar falando" por muito tempo sobre o tema.
Todavia, será que a demissão do dito cujo surtiu o efeito desejado?
No dia seguinte ao decreto a assessoria do governador foi taxativa: a demissão do "gerúndio" foi um recado oficial. Pelo estardalhaço causado, Arruda foi procurado a fim de conceder explicações mais consistentes para sua atitude. Enfim, para desdobrar os quatro míseros artigos do Decreto nº 28.314 que justifica a demissão, pura e simplesmente, como "desculpa de ineficiência". Nada do homem. Correto ou não, o fato é que ele (o governador), no uso de suas atribuições legais, obviamente que amparado pelo poder que ostenta, resolveu banir – ou num ato desesperado, tentou banir – a referida locução verbal dos órgãos governamentais do Distrito Federal.
O "gerúndio", inerte, calado e quase esquecido nas gramáticas de língua portuguesa se viu grande. Foi bajulado e, em contra partida, escrachado pelos que querem seu fim. É possível que "tenha tentado" intervir. Algo do tipo: "Vou estar tomando as providências cabíveis ante esse ato desrespeitoso". Ganhou ares de super star, mas logo saiu de cena. Não foi readmitido, pois isso representaria um ato de fraqueza do irritadiço governador. Ficou em trânsito freqüente por todo canto, inclusive nos bastidores do poder público federal. Que o diga o atual governador do Estado de São Paulo, que nos tempos de ministro pronunciou em entrevista oficial: "outra vacina que vamos estar aplicando amanhã".
Como de praxe, não se questionou o que realmente impulsionou o governador a tomar tal atitude, e que pudesse justificar a sumária demissão. Ineficiência? Burocracia? A feliz comunhão dessas duas ilustres palavrinhas de nossa querida língua? Sim. Mas, em que circunstância específica Arruda tomou a decisão, e pior, redigiu – ou não – tão esdrúxulo decreto. Será que uma campanha de conscientização não surtiria melhor efeito? Será que a irritação foi tanta, a ponto do governador ser tão insensato com o malfadado Gerúndio?
É de comum conhecimento que a prática do "gerundismo" assolou o país. Não o gerúndio. Ele por si não passa de mais uma regra gramatical. O seu uso indevido sim, deve ser banido e execrado da face da terra, ceifado sem pudor. Entretanto, não será um decreto isolado e proveniente de um momento de fúria que trará paz aos justos e aos apreciadores do bom português. Nem aqui, nem no Planalto. Não fosse pela demonstração pública de poder, o honrado governador concluiria que o Gerúndio não é empregado exclusivamente do (no) Distrito Federal. Esperto que é, está "sendo empregado" da padaria, da conversa de botequim, das favelas, da alta sociedade, dos campos da política, do esporte e assim continuadamente.
PS: O texto acima é um dos criados e criticados no texto "Sigam-me os bons". Assino o que escrevi na oportunidade, cerca de 30 dias atrás.
Escrito por Anton Roos às 13h32
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Sigam-me os bons
Quem se utiliza da escrita como principal ferramenta de trabalho, vez por outra comete erros, segue tendências e acaba se enveredando pelo senso comum. Curiosamente, em muitos casos, o autor da façanha, mesmo sem perceber, contribui no aumento gradativo de uma imensa bola de neve de conceitos. A opinião pública abraça a dita como verdade e assim a massa branca segue seu curso, onipotente. Esvai-se a crítica e o livre arbítrio de pensar. O que se pensa e se fala é fruto de outro pensar e falar, plágio constante, recorrente e irreversível. Exemplo clássico é a opinião enraizada na população a respeito dos políticos. Chega a preocupar. Ser político se tornou sinônimo de mau caratismo, corrupção, ladroagem, safadeza e o escambau. Está na ponta da língua. Em cada esquina.
Não interessa nessas linhas apontar um culpado, ou, tecnicamente, a mente brilhante por detrás de tudo isso. Também não é intenção, menosprezar o mérito dos que consideram como verossímil a cafajestagem dos políticos. O que se proclama é a discussão e principalmente a reflexão sobre o assunto. Afinal de contas, porque cargas d’ água odiamos tanto os homens e mulheres que “vivem” da política?
O tema dos artigos não se constituía exclusivamente sobre eles, o estopim fora um ato isolado de um representante do povo e não o que aquele homem tivera feito em detrimento da população que governa. Não se pedia para discorrer sobre o quanto de amor ou ódio se tem para com ele (s). O resultado foi desconcertante. O equivalente a pendurar o político num tronco e, castiga-lo sem piedade, chicotada depois de chicotada. Possuídos de prazer, em nenhum momento os autores dos textos se preocuparam nas conseqüências dos mesmos. O sentimento que pairava no ar era de êxtase, uma leve sensação de leveza. Como se todas as impurezas do mundo tivessem sido expurgadas de uma só vez, em uma só lauda.
Curiosamente, o senso comum foi a tona dos artigos. Era possível inclusive perceber semelhanças entre uma opinião e outra. Ao passo que se batia não se apresentavam soluções ou argumentos que sustentassem o descontentamento com o político em questão. Todos foram parar no mesmo tacho, sem distinção. Igualmente desprezíveis. Como a conversa que tive com um colega depois da sessão “eu odeio político”. Apesar de nenhum dos autores conhecerem o governo daquele homem público, optou-se pelo mais fácil. Bater, bater e bater.
A mesma linha de raciocínio pode ser utilizada com relação a esse texto. Ora pois, ele exprime uma opinião, isolada, com base em preceitos individuais e por isso passível de discussão. Concordantes e discordantes. Livre arbítrio para pensar sobre o tema, manter opiniões ou modifica-las. Mas sempre incólume no erro dos que escrevem e fazem de seus pensamentos visíveis, o erro de agregar adeptos e não gerar reflexões, o erro de querer que todos o sigam, cegamente. “Sigam-me os bons”.
Escrito por Anton Roos às 10h28
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