Blog do Barba
   És gringo? Te mato

Aquele homem tinha o perfil de quem, em circunstâncias normais, passaria despercebido. Não havia motivo aparente para nossos caminhos se cruzarem, e na pior das hipóteses, trocarmos algumas palavras. Aguardava o coletivo na conturbada e movimentada Rodoviária do Plano Piloto de Brasília. Jogo rápido. Embarcar, pagar, assoviar algumas melodias tolas, relembrar bons momentos vividos, chegar no ponto de descida e pronto. Nada de demais.

 

Curioso, que tantas vezes, em todo lugar e a toda hora, centenas de pessoas passam ao nosso lado e não damos a menor importância. É a velha história, que sempre martelo: acima de tudo somos individualistas. Prega-se tanto sobre coletivismo, solidariedade e afins, mas no fundo, precisamos em principio sermos individualistas e naturalmente um pouquinho egoístas. É da natureza humana e não há quem me prove o contrário.

 

O homem tinha uma aparência surrada pelo tempo, não mais que quarenta anos. Barba por fazer, roupas desgastadas e uma profundidade no olhar assustadora. Carregava uma mochila nas costas, e nas mãos um pote plástico com alguma espécie de sopa. Sabe-se lá quantas refeições antes daquela, o pobre homem tinha feito aquele dia. Passava das oito e meia da noite. Estava introspecto no meu canto, pensando se aceitava ou não a oportunidade de ilicitamente pegar uma carona de carro até meu destino. Tempo suficiente para que nossos caminhos se cruzassem. O meu e o do homem do pote plástico com sopa.

 

Quando parou diante de mim, recebeu a mesma oferta que eu havia recebido minutos antes:

 

- Amigo, W3 Norte?

 

Com cara de poucos amigos, se fez de rogado, sem dar atenção ao que haviam lhe proposto. Apontou o dedo em minha direção e com os olhos levemente tomados por uma raiva sanguinária, exclamou:

 

- Tu é gringo?

 

Tomado por um susto momentâneo, tive poucos segundos até que respondesse a indagação daquele homem. Afirmei minha condição de brasileiro, como de fato, faria em qualquer lugar do mundo. E fui tomado por nova intervenção do homem que persistia com o dedo apontando na minha direção:

 

- É bom mesmo, porque gringo não é bem vindo por aqui. Gringo por aqui tem de morrer.

 

O sangue me subiu a cabeça. Fiquei estarrecido. Não tive chance de retrucar e acho que foi o melhor que aconteceu. O homem do pote de plástico com sopa, baixou o dedo em riste, deu nova colherada no suculento liquido marronseado e seguiu para, teoricamente, nunca mais cruzar com meu caminho.

 

Aceitei a ilícita oferta da “carona” e embarquei no carro rumo a W3. Não podia ficar mais um segundo naquela Estação Rodoviária. Minha cabeça por instantes, pensou em mil coisas. Que motivo teria aquele homem para tomar a atitude que tomou? Que mal os “gringos” teriam lhe feito? E eu, com tudo que me ocorre nos últimos dias, que lição poderia tirar daquele episódio. Comecei o ano acometido de poucas perspectivas, fui agraciado com uma chance que pelas circunstâncias impostas pelas mais distoantes realidades, acabou por se tornar apenas um sonho, bem distante, diga-se.

 

Em tempo, e enquanto tive a chance de sonhar com uma nova realidade e uma nova vida longe do Brasil, o fiz com todas as forças possíveis. Não me arrependo, pelo contrário, acredito que na vida muitas vezes precisamos assumir nossos erros e fraquezas para que possamos encontrar o caminho que verdadeiramente queremos trilhar.

 

Quantos sonhos foram interrompidos no Aeroporto de Madrid esse ano. Quantos sonhos aquele homem entre uma colherada e outra de sopa, punha pra fora tendo em mim seu algoz e expurgando todas suas angústias e sua raiva para com os estrangeiros, que muitas vezes – ou na maioria das – são tidos como super stars quando cá desembarcam, não importando sua procedência ou seu caráter. E nós quando, sonhamos com um lugar ao sol, e para isso vislumbramos uma nova vida em terras estrangeiras, somos tão maltratados e sofremos tanto.

 

Que país é esse, que acolhe com tanta facilidade e é tão humilhado lá fora. Que vida é essa, que transforma os sonhos das pessoas em utopias ou ilusões devido o número de erros que elas cometem e, por fim, que vida é essa que separa histórias belas e eternas, por um oceano de especulações.

 



Escrito por Anton Roos às 14h17
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