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Dia ruim
Dois cachorros brincam na calçada. Os que passam precisam desviar dos quatro patas. Um vira lata, mezzo sujo e com o perdão da palavra, bem feinho, outro, filhote de cachorro pedigree. Os dois parecem desinteressados com o que se passa a sua volta. Também pudera o que poderia interessar dois cachorros no conflituoso mundo dos seres humanos? Eles comem, são tratados – quanto ao vira lata não se sabe, porém? –, tem donos que cuidam deles.
Nem suspeitam os caninos, que ao lado passam pessoas a carregar nas costas um piano de calda de problemas. Pior, existem pessoas que não tem quem cuide delas. Pessoas e seus dias ruins. Porque no mundo dos homens, existem dias, e dias.
Alguns anos atrás, Michael Douglas interpretou uma pessoa que vivera seu dia de fúria. Mostrava o quanto estamos fadados a nos influenciar facilmente e nos abatermos pelos problemas que temos. No filme, Douglas externava todas suas mazelas contra tudo e todos, como um desabafo contra o mundo minimalista que vivemos.
O cinema ainda produziu outra obra peculiar: Clube da Luta. Brad Pitt e Edward Norton protagonizam personagens conflitantes e que representam o limite da sanidade do ser humano. Quando saí do cinema, recordo que tive vontade de socar a primeira pessoa que me cruzou o caminho. Não que ela fosse má, ou merecesse um sopapo no pé do ouvido. Fui condicionado aquilo. Como se pudesse fazer isso toda vez que passasse por um dia ruim ou quisesse exterminar meus demônios.
E olha que não foram poucos depois que assisti ao filme. Cheguei a escrever um pequeno conto influenciado pelos dois filmes.
Um estudante de medicina de São Paulo está preso, justamente por fazer do seu dia ruim o calvário de outras três pessoas. Isso sem contar as famílias. O propenso estudante, simplesmente entrou em uma sala de cinema, e disparou contra o público. Vivia um dia ruim? É possível, entretanto, o seu dia ruim, o levou a cadeia e ceifou seus anseios de se tornar médico. Três pessoas morreram enquanto procuravam se divertir assistindo a um filme no cinema. Quem explica?
É impossível prever o que será do dia de amanhã. Que pé terá o prazer – ou não – de tocar o chão primeiro. Que cara e espírito receberá os primeiros sinais do novo dia. Todavia, a certeza que paira no ar, é que por mais que vivamos um dia ruim, ainda assim, vamos olhar nos olhos das pessoas e dizer “Bom dia”, e quando perguntados sobre como estamos, vamos ser ainda mais mentirosos em dizer que “estamos bem, obrigado”.
Nem sempre se está bem. E isso, garanto, não é privilégio somente dos seres humanos. Lembram dos cachorros que brincavam? Amanhã eles não vão olhar na fuça um do outro. É a vida. Existem dias, e dias.
Escrito por Anton Roos às 08h37
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O flagelo de um homem - Parte 2
Será que ele tem histórias para contar? Será que alguém se importa com essas histórias? Suas angustias, lamúrias, sofrimento. Está claro, ele quer um abraço. Tenta se levantar, agarra-se ao vaso sanitário e parece confortar-se. Não há reciprocidade. Parece rememorar o abraço de uma única pessoa. Onde estará ela enquanto o homem definha no chão frio e úmido do banheiro?
- Eu te amei tanto, resmunga com parte do rosto grudado a parede do vazo.
Dúvida. Por um instante, ele põe em cheque o amor que preserva no coração. Será que prevê um futuro de ainda mais dificuldades. No fundo ele sabe que ainda ama de todo coração. Mas sente que o seu está esmigalhado.
Será uma metáfora? Coração e espelho, espelho e coração.
O espelho é simples. Está lá há anos, no mesmo lugar. Esse mesmo homem já passará por ele várias vezes. Escovara seus dentes diante dele. Passara o pente nos cabelos e barba, antes de sair para encontrar o amor que o faz chorar nesse momento de dor e dúvida. Já se viu ali uma centena de vezes. Não percebeu quando a rachadura do espelho cresceu. Qualquer dia, uma das partes pode cair. Dizem que espelho quebrado é sinal de má sorte. Ele não acredita em superstições.
E se uma das partes quebradas do coração cair? Que sinal isso tem.
Dias antes, se olhava no mesmo espelho e dizia com ar de triunfo:
- Eu vou vencer. Eu sei que vou. Acredito nisso.
O homem desfalecido no chão, sempre gostou de conversar diante do espelho. Fez isso incontáveis vezes. Mas agora, parece temer o novo encontro com si próprio. Não sabe a razão. Talvez se sinta como o pior dos seres. Um monstro, um derrotado. Tem medo de saber a verdade da forma mais cruel e injusta possível. Ao menos para ele. Pelo significado que ele apregoa para crueldade e injustiça.
Algo mexe com seu interior. Ele sai do transe. Levanta. Está zonzo. Com um passo a esquerda estará diante do malfadado espelho. É preciso encará-lo. Dizer olhando nos olhos aquilo que está engasgado. Desabafar. Jogar forra as correntes que lhe prendem. Sem isso ele jamais conseguirá abrir a porta e sair. Encarar o mundo.
Ele ouve a televisão ligada. Noticiário. Rebeliões em presídios, assassinatos mal resolvidos, visitas governamentais á países estrangeiros. Um mundo se passa do lado de fora. Outro, dentro dele. É esse mundo que o homem precisa conhecer. Tem vergonha da sua nudez. Se sente impotente. Desafia suas imperfeições e resolve encarar-se de novo.
Enfim, está diante do espelho. Observa a si próprio. Seu rosto, seu peito, seu corpo. Tenta ir além. Ver o que existe depois da carne e dos ossos. Ver sua alma. Conhece-la. Uma rajada única e certeira basta. Assim se fez:
- Quem és tu? O que fazes assim desse jeito? Achas que agindo desta madeira vai mudar alguma coisa? Acorda rapaz, tu fizeste o que teu coração pedira que fizesse. Tu acreditaste nos teus atos, foi sincero, amigo, conselheiro e foi sim, não coloque em dúvida isso cara, amado de todo coração. E tu sabes, no fundo tu sabes, que serás recompensado pelo amor que queima no teu peito. Pare de lágrimas. Levante a cabeça, pessoas dependem de você. Sua família, amigos, colegas. Não subestime sua capacidade. Pode ser clichê e demasiadamente piegas, mas é fato: não há nada como um dia após o outro. Você sabe disso, não entendo como duvidas ainda. O que é teu ninguém tira. Acredite. Viva, conjugue esse verbo, novamente, de uma nova maneira, mas conjugue. Não tenha medo de errar.
Por um instante, silêncio.
O homem, enfim, sorriu. Olhou para dentro de si. Para os olhos vermelhos e ainda entorpecidos de sofrimento. Para os cabelos ralos e desajeitados, para a barba por fazer, do jeito que se sente bem. Abriu a torneira para lavar o rosto. Olhou uma vez mais no espelho e ainda sem saber ao certo o que se passara, agradeceu:
- Obrigado.
De bermuda e chinelo, saiu do banheiro. Na sala encontrou outro homem. Sentado, sozinho no sofá assistia a TV. Cabelos grisalhos, de óculos e bebendo uma generosa xícara de café com leite. Seu pai.
Com um brilho intenso nos olhos e uma renovada força interior, disse:
- Pai, eu quero um abraço.
Enquanto via o pai sorrir e se levantar para vir ao seu encontro, deixou que o inconsciente lhe falasse mais uma vez:
- Deus, obrigado por tudo.
Escrito por Anton Roos às 08h19
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O flagelo de um homem - Parte 1
Três por um e meio. Nenhum centímetro a mais nem a menos. As paredes, apesar da recente pintura, demonstram sinais de desgaste. O verde da parte inferior é intenso. O branco que recobre o restante da peça está coberto de ranhuras. O teto de madeira é velho, não recebe uma lavagem há tempos. Esta sujo. A luz é fraca, contrasta com o verde intenso da parte inferior da peça. Em pouco, manter-se de olhos abertos se torna cansativo.
Uma pequena veneziana, aberta ou fechada, não é capaz de distinguir se é dia ou noite. Além da porta, também verde e recém pintada, é a única ligação com o mundo exterior. Não se vê nada dali. Nem sol, nem chuva, nem pessoas. O pequeno boxe, que separa o chuveiro do vazo sanitário e da pia, é improvisado e ainda se percebe a umidade de um banho recém tomado no piso frio e nas paredes cheias de gotículas d’água. Outras tantas se formam na base do chuveiro. Caem leves, sem pressa, como um tempo que insiste em se manter estagnado.
Duas toalhas úmidas estão penduradas na parte superior esquerda do banheiro. Um pedaço de madeira de aproximados 50 centímetros com 5 pregos distribuídos entre ele, serve como cabide. Sustenta as peças de banho e algumas roupas. Uma calça jeans, envolta num cinto preto e sustentando um molho de chaves e um chaveiro com a palavra, RUSH. Uma camiseta roxa e uma cueca branca. No chão um par de sapatos e meias sujas. A pia e latrina parecem limpas, brancas como a neve. Foram lavadas a poucas horas. Outra toalha, de rosto, cobre a face de um homem, deitado no piso frio. Nu.
O silêncio é sagaz. Ele tenta mirar alguma coisa. Sua visão converge num raio de aproximados 45 graus. Um espelho é o que vê. Por um instante, o homem tira a toalha dos olhos para observar a sua volta. O corpo deitado parece cansado, os olhos estão inebriados pelas lágrimas que teimam em não cessar. A essa altura é impossível definir a quanto tempo ele jaz deitado e aparentemente sem forças para continuar. Não tem amigos, ou alguém para conversar. Está só.
O olhar procura incessantemente pelo universo limitado do banheiro. Precisa de ajuda. Não tem forças para levantar. O silêncio é implacável. O gemido da dor e do vazio assola o coração do homem como uma geleira. Reverbera pelas paredes.
- Tem alguém me ouvindo – clama com voz trêmula e quase sem forças.
As lágrimas aumentam. A toalha outrora úmida pelo secar de várias lavagens de mãos, serve para enxugar os olhos lacrimejantes. A mente do homem trabalha. Ele não ouve vozes. Luta contra si próprio. Contra a insanidade. Momentânea?
- E se eu desistisse agora? Pergunta inconscientemente.
A voz teima em escapar. É preciso. Conversar. Só isso. Ser ouvido.
- Porqueeeeeee?
Quase como um grito. Abafado, o questionamento supera o silêncio. O homem precisa de respostas. Quer entender o que se passa. Sua vida está um caos. Um tormento. O mundo desabou sobre sua cabeça. Está sem chão para pisar, sem forças para continuar.
- O que foi que eu fiz?, pergunta com dificuldades claras devido ao choro incessante.
A frase se prolonga. Nova seção de choro. É triste ver a cena. O homem se contorce. Parece querer sair do corpo. Rasgar a própria pele em sinal de desespero. O espelho não fala. Está quebrado. Partido em dois pedaços, tal qual o coração do homem nu.
Em posição fetal parece se acalmar. Abre os olhos. Morde a toalha que segura nas mãos com toda força que ainda lhe resta. Vê a vida que segue. Pequenas formigas e seus destinos irracionais.
- Oi, porque vocês têm pressa?, pergunta a procura de um amigo.
Sinal de loucura? Um homem conversando com um grupo de formigas? Em condições normais, era possível que ele jamais as tivesse visto, e que mesmo sem querer, tivesse pisado em cima delas, destruindo o curso daquilo que faziam com tanto empenho e agilidade. Ele quer uma resposta e repete a pergunta.
- Oi, porque vocês têm pressa?
Sem sucesso tenta outro caminho.
- Eu invejo vocês, andam pra lá e pra cá. Parece que todas sabem a função que exercem e o motivo de sua existência. E eu, será que alguém pode me dizer qual a minha função e o motivo deu estar aqui? Poxa, eu to cansado, será que ninguém percebe isso. Porra, vocês me odeiam também, é isso? Respondam suas formigas nojentas. Respondam.
Num excesso de raiva a pesada mão do homem determina o fim da trajetória das formigas. Cessa o andar. Rapidamente, ele desvia sua atenção. Volta-se para o teto. Para a lâmpada dependurada que parece a quilômetros de distância. Um oceano, talvez. Ergue a mão direita, tenta toca-la. Não tem forças.
- Eu preciso tanto de ti. Ele vê um rosto na claridade da lâmpada, sorrindo para ele. Lembranças, boas lembranças.
A mão cai. Ele parece absorto num transe. Resmunga palavras indecifráveis, incomunicáveis. Vai adormecer. Clama por ajuda. Implora. Será que sabe para quem pedir? Ou como fazer?
Três palavras se sobressaem: “ajuda”, “porque” e “te amo”. É por amor que ele sofre. Quer ajuda para superar o momento ruim. Questiona-se, por achar que fez algo errado e não sabe o que? É preciso entender o que se passa com esse homem. Que vida ele tem, que princípios carrega dentro dele.
SEGUNDA PARTE AMANHÃ
Escrito por Anton Roos às 14h25
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O tempo, a distância e a incerteza
Pretensão demais seria discorrer sobre o tempo em poucas e esdrúxulas linhas. Ainda mais se a ousadia fosse exclusivamente falar dele. O tempo. Até justificar de que tempo a missiva se trata, já teria escrito um tratado. Longe de mim, por enquanto. Resolvi unir ao tempo, a distância e o incerto. Falar dos três unidos é tarefa bem menos inglória.
Certezas por certezas, o tempo é passageiro. E passa rápido. Quando vivemos momentos de plena e total felicidade, por mais que insistamos em perpetuar cada segundo, o tempo – carrasco que é – não afrouxa o nó e continua de passagem. Por outro lado, quando ao tempo se une a distância daquilo que mais desejamos, ele parece caçoar da nossa deturpada cara de tristeza, como quem diz: Agora guenta rapa! Como agravante, o incerto. O que será depois que esse maldito tempo passar, pensamos a todo instante. E a certeza da incerteza nos corrói a mente. Como se pensa besteira nessas horas.
Em junho do ano passado, o tempo parecia que nunca passaria. Toda quarta-feira era uma tortura esperar pelos jogos do tricolor pela Libertadores da América. Penúria. Da hora que saia do trabalho até o começo da partida o tempo parecia não passar. Ele passava, mas dava a impressão que não passaria. Os 90 minutos de jogo então, pareciam eternos. Que o diga a peleja contra o Santos na Vila. Em dezembro, fiz uma viagem de ônibus até o Rio Grande do Sul. Outra vez, o tempo parecia que perpetuaria eternamente um zilhão de vezes. Não bastassem os dois dias de viagem parecer intermináveis, as noites também foram. Um martírio.
Nos idos de 1999, tive minha primeira experiência com relacionamento a distância. Foi um desastre. Sofrimento, dor, e uma sensação que aquele vazio não passaria jamais. O sentimento perdurou por alguns anos, mas morreu por falta de vitamina. Justamente, por falta de alimentação. Morreu de “fome”. O tempo me fez acreditar que jamais viveria algo semelhante e que estaria fadado a solidão. Um eterno solteiro. Não que isso fosse a pior coisa do mundo, mas de certa forma, havia uma amargura crescente no meu peito. O tempo colocou as coisas em ordem, e me concedeu nova chance de amar. Porém, a distância voltou e a agora, resta-me a incerteza. Ah, e uma mente confabulando, confabulando e confabulando um paiol de bobagens. Dureza.
Quando deixei o Rio Grande do Sul, dez anos atrás, não fazia idéia do que aconteceria comigo. Tinha 18 anos e um carrossel de dúvidas sobre meu futuro. Precisava me encontrar. A propósito ainda não sei o que será do futuro. Descobri que a única certeza que temos com relação a ele é justamente a incerteza de não sabermos o que irá acontecer. É assustador, mas é a verdade.
Todas as decisões que tomamos na vida nos fazem viver experiências que podem mudar nossos rumos e, infelizmente, nos tirar do caminho de certas pessoas, nos colocar no caminho de outras e assim por diante. E quanto a isso, não se tem muito o que reclamar. A escolha é individual. Livre arbítrio. Se minha opção foi sair para uma festa, teoricamente estava condicionado a conhecer pessoas e deixar que tais pessoas invadissem minha vida. O segredo: saber discernir a importância dessas pessoas para cada ocasião.
Vou além: o segredo, é justamente esse. Discernir o que é realmente importante do que não é. As vezes, precisamos quebrar a cara, quinze vezes para aprender que o caminho que tanto insistíamos não era o ideal.
Logo que terminei o colegial, entrei na faculdade de Direito. Era jovem e cheio de dúvidas. Será que ser um advogado era realmente o que queria para minha vida? Durei pouco mais de um semestre. Não me adaptei, não insisti é verdade, mas preferi não persistir em algo que poderia não me trazer felicidade. Hoje estaria formado, mas prefiro acreditar que não estava totalmente preparado para aquilo. Tentei letras e publicidade posteriormente, e também não deu certo. Agreguei das experiências o melhor que pude e aguardei minha hora. Encontrei meu caminho, o que queria, embora o incerto vive a me rondar. Jornalismo, a minha paixão.
O que será depois que estiver formado? Quem sabe? Deus? É provável, entretanto, eu sei que faço o que gosto e que estou com mentalidade e maturidade suficiente para seguir em frente. Por mais que o tempo passe, a distância machuque, e a incerteza seja uma constante, não se pode desistir, jamais.
Escrito por Anton Roos às 11h26
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